AFC-RJ
america football club1904 - 2004
Nasceste em meados do século passado, resultado do amor e dedicação de
brasileiros – que por ti tanto trabalharam - pertencentes às mais
variadas camadas sociais; eles, destarte vivessem realidades
diferentes, tinham igual propósito: a concretização dum sonho
amadurecido nos anos quarenta do referido século XX. Durante anos foi
então tomando forma um gigante de concreto erguido de forma a reter o
calor humano em dias de festividade, inclusive no inverno do antigo
estado da Guanabara. Ganhavas vida tu, mais um imponente cartão postal
carioca, alvo de devoções de turistas e nativos.
Herdaste nome de repórter há muito falecido e tens apelido indígena, o
qual é proveniente de um nome de ave pertencente à família dos
psitacídeos; és filho da cidade do Rio de Janeiro e, assim como tua
progenitora, nasceste com a intenção de deslumbrar o mundo. Teu leito
de nascimento, crescimento, envelhecimento e imortalidade é a zona
norte da referida cidade; bem próximo ficas do centro da ex-capital
federal. Sob o formato anelado – recheado por terra e grama, cal e
ferro, concreto e também carne a pulsar com seus milhares de corações
engendrados -, fazes-me comparar-te ao objeto circular que monopoliza
os olhares de multidões e rola feliz quando em seu genuíno lar – o
templo maior dos amantes do futebol.
Trata-se este termo de gostoso brasileirismo do termo britânico
original. Veio da fria Inglaterra o embate esportivo praticado em
conjunto entre duas equipes que procuram conduzir ao gol adversário
uma bola de couro impelida com os pés – é permitido, contudo, o uso de
qualquer parte do corpo do atleta, menos das mãos, com exceção feita
aos guardiões das metas: os goleiros. Reza a lenda que, nos
primórdios, tal esporte era completamente desprovido do romantismo que
o consagrou, pois os primeiros objetos de chutes teriam sido cabeças
de guerreiros do exército inimigo mortos em combates. É ele o mais
brasileiro dos esportes e decerto o mais globalmente aplaudido e
praticado.
Muitas pessoas já chegaram a ti, visando a descontar a frustração de
perceber baixos pagamentos por seu trabalho proletário. Esquece-se por
duas horas a dura jornada diária ao surgirem bailes de craques que
fazem rolar com maciez a bola dos sonhos do torcedor economicamente
mais humilde. Comovem-se, entrementes, além destes, milionários ávidos
por geniais cenas de malabarismo que o dinheiro de clubes de futebol
costuma com maior ou menor esforço adquirir, disponha ou não de
capital para tanto. Em momentos de confrontos entre equipes, comumente
um indivíduo proveniente da massa pode se revelar mais hábil
administrador de operários do campo que um empresário envolto em
capital. O rolar da bola de couro parece a todos fascinar sem
dificuldade, vide a quadrienal época de Copa do Mundo.
Outras pessoas a ti vieram, de modo a responder a agruras guturalmente
vociferadas pelo patrão, durante toda a semana, não raro dotando-se
este de mais pura falta de compaixão. Aí, qualquer bola mal atrasada à
defesa, passe errado, chute enfadonhamente desferido ao gol
adversário, gol-contra, punição com cartão amarelo ou vermelho,
pênalti mal ou bem marcado contra o clube do coração, "retranca"
covarde, penalidade máxima não convertida em gol pelo time do coração,
falha do goleiro... torna-se motivo para, do fundo da alma e do resto
de ego, insultar mães vivas e mesmo já falecidas. A indignação toma
proporções monstruosas, freqüentemente multiplicada por mil, dez mil,
cinqüenta mil! Rostos enrubescem-se repletos de fúria, outros ganham
tonalidade amarelada e revelam seu pavor incontido. Vários destes já
te deixaram para trás em diversas ocasiões, descendo a rampa em
procissão entristecida, antes mesmo de ecoarem os silvos finais do
apito, enquanto o outro lado, adversário, em êxtase absoluto,
comemorava a glória que por dias parece eterna.
Diversos indivíduos, durante o lapso de tempo descrito, já se iludiram
com a frase anciã que reza seres tu o templo onde todos são iguais,
independentemente de raça, sexo, idade, posição econômico-social ou
qualquer outro critério. O dia seguinte de trabalho é que revela quem
pode vangloriar-se e aquele que melhor faz se resolver manter-se em
tom sério e sereno, aceitando até mesmo gozações do superior
hierárquico (torcedor da equipe subjugada) por vitórias históricas e
remotas obtidas pelo clube do coração deste.
Outros tantos em ti aportaram, com a única ressalva de ofuscar um
pouco a visão atenta de teus fãs, visando a vender lanches aos mesmos,
visto que desejavam retornar a suas casas com o sustento da família.
Precisam ser ágeis, porém cautelosos, em suas fintas e dribles, pois
usualmente carregam nos ombros pesados engradados e têm de manter o
equilíbrio em estreitos corredores compostos de acentos e gente ávida
por gols.
Vários os que perante ti choraram a fome sempre companheira e a
miséria inseparável, numa vida em que somente parece haver momentos
árduos. Sentaram-se eles nos folclóricos, tradicionais e festivos
degraus da geral, brincaram com a bola do jogo nada gentilmente
tratada por alguns de seus ídolos e, depois, com a cabeça entre os
braços cruzados sobre os dobrados joelhos, lacrimejaram a sina
aparentemente definitiva.
Diversos também os que, mesmo sem dinheiro nos bolsos ou mãos, vieram
a ti, pedindo esmolas com o fim de poder desfrutar de visões e emoções
fantásticas, junto a tantos outros alucinados fãs. Logicamente depois
disto regressaram ao lar repleto de um vazio inconcebível, onde o
improviso se faz onipresente e a caridade de vez em quando bate à
porta. É um lar que conta ansioso o tempo para o retorno de seu
morador, como o fazem cães e filhos no que tange respectivamente a
seus donos e pais ausentes, ou seja, um lar de penúria fiel.
Freqüentemente, tuas cadeiras e arquibancadas servem de acento a
estudantes e aspirantes em concursos públicos diversificados que, nas
folgas do anfitrião, enquanto respondem a seus exames dotados de
questões mais complexas, têm os olhares a fitar o gramado. São pessoas
que, sob sol ou chuva, relembram momentos de êxtase ou sofrimento, mas
agora mantêm-se no silêncio constante do maior estádio do mundo.
Trata-se de silêncio somente rompido por borrachas e lápis a roçarem o
papel da prova, além de prendedores a bater contra o apoio sólido de
pranchetas.
Rixas ganham vida dentro e fora do Mário Filho; seus arredores se
estendem a partes diversas da cidade maravilhosa em dias de clássico,
as quais tornam-se leito de massacres irracionais e intempestivas.
Urina é despejada tranqüilamente em tuas veias; água entra em teus
pulmões, o que decorre de tantas infiltrações. Ademais, recebem teus
muros assinaturas rústicas e imundas, de forma que nem mesmo reformas
recém-empreendidas são poupadas pelos vândalos.
Noutros tempos, cavalheiros de chapéu e damas em trajes de gala a ti
proporcionavam requinte (por mais que isto me lembre haver outra parte
da população amplamente desfavorecida em termos de distribuição de
renda). Nunca renegaste, entretanto, batucadas de torcidas altamente
organizadas, as responsáveis pelas festividades a deixar-te acordado e
desfraldar (como com propriedade narrava Mário Viana) bandeiras de
várias extensões e coloridos. Tanto hoje quanto no passado remoto,
encantas sempre turistas e nativos com teu charme, apesar dos pesares.
Zebras já correram soltas por teu vasto gramado, como na savana
africana, saindo felizes e vitoriosas contra seus sanguinários
predadores. Houve outras impiedosamente destroçadas em suas vísceras,
por leões e demais felinos de grande porte dotados de frieza voraz.
Tudo acompanhado por inúmeras pessoas dentro e fora de teu gigantesco
anel de concreto, o qual vale ouro.
Mesmo Papai Noel, numa de suas tantas encarnações, em muitas ocasiões
pousou em teu centro (anualmente), de forma a trazer um punhado de
encanto a milhares de semblantes tão pintados com as cores da
desesperança e da agonia, por mais que estas se fizessem revigoradas,
antes mesmo da alvorada seguinte.
Líderes religiosos e políticos, além de artistas diversos igualmente
experimentaram a glória de ser alvo de milhares com seus olhares
fixos. Tiveste também a inusitada estadia de emocionante partida de
voleibol, na qual nossos guerreiros de prata derrotaram os russos sob
também inusitada chuva. Por estes e outros motivos, tiveste teu
gramado assaz danificado. Todavia, por te revestires de ar divino,
sempre tiveste admiradores a suar e sangrar para te rejuvenescer.
Aquele votado em diversas ocasiões como o maior atleta de todos os
tempos não cansava de bailar sobre teu tapete. Em seu maior dia de
glória, tu de forma alguma poderias estar ausente. E de fato não
estiveste. Aliás, não raro recebeste tal atleta e sua trupe, mesmo
vindos todos de uma cidade situada no maior rival de tua mãe: o estado
de São Paulo. Foram muito bem acolhidos pelo povo carioca, tendo
recebido ovações comparáveis às dispensadas aos grandes clubes da
cidade maravilhosa.
Por outro lado, assim como não deixaste zebras sem pasto, recebeste
igualmente indivíduos – com suas pernas de pau, as quais em algumas
ocasiões afundaram no gramado e em outras lançaram troféus aos
geraldinos -, aspirantes que vingaram, aspirantes eternos e autênticos
ídolos. Ao passo que muitos rolaram de dor em teu sacro tapete –
decorrente de gelidez e covardia vindas de adversários desleais -,
outros fizeram cambalhotas ganharem vida em entusiásticas
comemorações.
Como foi descrito anteriormente, recebes desde meados do século
passado indivíduos repletos de estórias, suficientes estas a coibir
cada folha de grama de teu tapete natural. Abres tuas portas a
situações diversas, mesmo àquelas passíveis de te causar algumas
lesões em tua verde pele.
Quantos há como tu que fizeram o mesmo pelo mundo afora? Certo é que
os demais não são tão grandiosos nem tradicionais quanto tu. Mesmo o
respeito e a idolatria a eles dispensada não são os mesmos. Deves,
destarte, reconhecer que nos campos de várzea muitos já se livraram de
suas frustrações rotineiras, afogando-as em lama, ao menos no tempo em
que estiveram ou a bailar com a bola ou a distribuir generosas
caneladas nesta. Qualquer chão de terra batida, areia, asfalto, grama
ou terreno baldio pode trazer alegria, mas nenhum destes genéricos
estádios, quadras e campos aspira à tua majestade. Exerces fascínio
sobre todo o mundo amante da arte – seja ela futebolística, musical ou
arquitetônica.
2ºsem/3 + mar/4

Criação de
Afonso Henrique
Webmaster:
Jorge Nascimento
Webdesigner:
Elida Kronig
Apoio cultural:
Versos & Acordes
Liter & Art Brasil