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1904 - 2004

Curiosidades

Deus salve o América - Crônica de Carlos Eduardo Novaes

 

Deus pessoalmente não vai salvá-lo porque no momento está ocupado tentando recuperar o país homônimo. Enviou, no entanto, um representante na figura de Romário, que vai entrar de sola para resgatar a grandeza perdida do clube. O Baixinho e eu temos algo em comum além da diferença de altura(?): ambos somos filhos de americanos! Não pense, porém, que nossos pais foram os derradeiros torcedores: ainda há muito diabinho por aí, o bastante para encher duas kombis.

Duas kombis, claro, se considerarmos apenas o primeiro clube dos torcedores. No dia em que fizerem uma pesquisa para saber qual o segundo clube dos cariocas vai dar América na cabeça com uma torcida maior do que a dos quatro grandes somadas. Todos temos um carinho especial pelo clube, o que muitas vezes nos faz chamá-lo de Ameriquinha. Nunca ninguém ouviu alguém dizer Flamenguin ho ou Fluminensinho.

Não sei se algum dia Romário ouviu seu pai falar em Natalino, Maneco, Dimas, Ranulfo ou Jorginho. Não sei se algum dia torceu pelo América como eu, que ao despertar para o futebol fui fazer coro com meu pai nas arquibancadas de Campos Sales. Não durou muito porém essa paixão (nem sei se era paixão de verdade ou pura influência paterna). Lembro do domingo em que cheguei em casa e resolvi dizer ao meu pai que não torcia mais pelo América. Foi um sofrimento! Passei semanas pensando em como contar com medo que ele me botasse de castigo, cortasse minha mesada, rasgasse meu álbum de figurinhas. - Tenho uma coisa para lhe revelar, pai - disse trêmulo. - Deixei o América!

O velho levou um susto semelhante ao de anos mais tarde quando anunciei que estava me separando da mulher.

- Como? Por quê? O que aconteceu?

- Me apaixonei pelo Botafogo!

- Assim? De uma hora para outra?

- Não pai. Já tem uns dois meses que a gente vem se encontrando em General Severiano.

- Por que você não me disse antes?

- Precisava ter certeza dos meus sentimentos. Mas hoje, depois da goleada sobre o Canto do Rio, constatei que é com o Botafogo que quero ficar até que a morte no separe. Aquela estrela me leva a loucura!

Papai pensou um pouco e mais sereno perguntou-me se não havia possibilidade de reconciliação com o América.

- Não quer pensar mais um pouco, filho? O Botafogo é um clube cheio de superstições. Há coisas que só acontecem com ele. Você ainda está muito pequeno para virar sofredor - disse. - Não quer esperar o América conquistar um campeonato?

- Quando será isso, pai? Quando? A gente não pode ficar dando amor o tempo todo sem receber nada em troca - fiz uma pausa. - Não pai! Essa decisão não tem volta. Já assinei os papéis (de sócio do Botafogo). De hoje em diante eu e o América seremos apenas bons amigos.

Papai então me disse uma frase que jamais esqueci: "Pode torcer por quem você quiser filho, mas o América permanecerá para sempre em seu coração". Tempos depois entendi o significado de suas palavras. Foi nas domingueiras dançantes da rua Campos Sales que meus pais se conheceram, namoraram, casaram e tiveram um único rebento. Tenho um enorme sentimento de gratidão pelo América. Sem ele eu não teria vindo ao mundo. No fundo devo minha vida ao Ameriquinha.

 

 

 

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