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1999 - America RJ - Um time proibido de jogar futebol

O America do Rio não aceitou disputar a seletiva para o Estadual e foi proibido de participar do Brasileiro da Série C. Foram nove meses só treinando.

O Brasil teve um time de futebol que só perdia: o Ibis, em Pernambuco. Um outro que surgiu em Amapá, da comunidade religiosa da Igreja Nossa Senhora da Conceição, o Oratório. Ou ainda o Quixadá, no Ceará, que já trocou por quatro vezes o nome do estádio. Agora, um clube do Rio consegue a proeza de ter uma equipe profissional que não joga, só treina. O America Football Club, assim fundado em 18 de setembro de 1904, está há nove meses parado, esperando uma partida para inaugurar o novo estádio, em Nova Iguaçu.

"O clima, às vezes, é o pior possível. Os jogadores são profissionais que dependem dos resultados em campo para ter o seu valor reconhecido, receber prêmios", conta Seraphim Baptista, de 65 anos, presidente de um clube que conquistou sete títulos do Campeonato Carioca (1913/16/22/28/31/35 e 60), uma Taça Guanabara (74), uma Taça Rio (82) e um nacional, o Torneio dos Campeões (82). O maior artilheiro foi Edu, irmão de Zico. Marcou 211 gols entre 1965 e 1974.

O tormento do America começou no início do ano, quando não aceitou disputar um torneio seletivo para o Campeonato Carioca, e prosseguiu no segundo semestre, quando a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) impediu a sua participação no Campeonato Brasileiro da Série C.

"O Conselho Arbitral havia aprovado a participação de 12 clubes no Campeonato Carioca”, relembra Baptista. “Pouco depois, a Federação mudou as regras e forçou a realização de uma seletiva, com dois clubes da capital, o America e o Olaria, e quatro do interior. Mas Bangu, Friburguense e Americano, sabe-se lá o motivo, ficaram fora da seletiva, que classificaria dois times – um da capital e outro do interior. Se o Olaria fosse o último entre os seis e o America o penúltimo, este estaria classificado."

O America não participou e recorreu à Justiça Desportiva. A atitude foi considerada intempestiva. “O jeito foi ir à Justiça Comum”, diz Baptista. E o que aconteceu? “Até agora não saiu a decisão.” Mas o clube ainda esperava participar da Série C.

JB de 04/02/99

"Os dirigentes do America estão mesmo dispostos a ir às últimas conseqüências para entrar direto na fase final do Campeonato Estadual, sem disputar o seletivo. O time já perdeu o primeiro jogo, domingo passado, por WO - não foi a Volta Redonda - e para mostrar seu inconformismo, os dirigentes abandonaram a reunião do último Arbitral da Federação, indignados com o fato de não terem sido notificados da cassação da liminar que tinham conseguido para suspender a seletiva. O presidente do America, Seraphim Baptista, pondera que o clube tem sete títulos estaduais, conseguiu 11 vices, conquistou uma Taça Guanabara e duas vezes a Taça Rio. E teria o apoio do próprio presidente da Federação de Futebol do Rio de Janeiro, Eduardo Viana, favorável a um Campeonato Estadual com 12 clubes. No entanto, por exigência da televisão, a competição terá apenas 10 equipes." JB

As contas

A recusa foi “um duro golpe” para o America. A CBF alegou que não poderia convidar a equipe por não ter participado de nenhum torneio. Baptista não vai apelar para a Justiça Comum no caso da Série C, menos ainda para a Desportiva. “Seria preciso muita influência, o que não temos. Não podemos fazer nada.”

Para manter os 25 jogadores, entre os quais se destaca o goleiro Zé Carlos (ex-Flamengo), e a comissão técnica sob o comando de Ernesto Paulo, o America gasta R$ 40 mil por mês. E os contratos terminam em dezembro. “Até lá temos um grande desafio de colocar este time para jogar, arrumar torneios, amistosos. Estamos tentando de tudo, até excursão para o exterior.”

Os prejuízos aumentam quando Baptista apresenta outras contas. “Com as rendas dos jogos em Nova Iguaçu poderíamos arrecadar por mês R$ 50 mil. Uma tevê a cabo, que iria mostrar as partidas nas manhãs de domingo, propôs pagar mais R$ 20 mil por jogo e estávamos negociando um patrocínio no valor de R$ 1 milhão. Perdemos tudo.”

O Efeito Coutinho

Eduardo Vianna
Caixa D’Água
Giulite Coutinho
Giulite Coutinho

A versão oficial, no Rio, é a de que o America sempre será prejudicado enquanto Eduardo ‘Caixa D’Água’ Vianna for o presidente da Federação Carioca. O dirigente tem aversão a Giulite Coutinho, ex- presidente da CBF e presidente de honra do America – o primeiro teria sido o Barão do Rio Branco. “Eu não acredito que isto seja motivo. Não acredito que Eduardo Vianna possa transformar uma briguinha política em perseguição.”

Baptista não acredita, mas o nome de Giulite Coutinho contribui também para provocar outro recente problema para o clube. Seu nome foi o escolhido para o novo estádio do America, que será inaugurado dia 19, um dia depois da comemoração dos 95 anos de fundação do clube.

Mas um sócio ganhou uma liminar na Justiça, sob alegação de que “pessoas vivas não podem ter seus nomes dados a logradouros públicos”. Enquanto a situação não se resolve, a torcida adotou um apelido: Vermelhão, numa alusão à cor usada nas torres de iluminação. O adversário para a primeira partida do ano do America ainda não foi definido: “Estamos estudando.”

O estádio tem capacidade para seis mil pessoas e depois de totalmente concluído abrigará 35 mil. O campo tem 110x78m e o terreno ocupa uma área de 70 mil metros quadrados. O presidente garante que o sistema de iluminação é o melhor do Rio e o estádio é o mais moderno do Estado. “Construímos vestiários até para os gandulas e para a Polícia Militar.”

Até agora foram gastos US$ 12 milhões (“pagos com o nosso dinheiro”) e serão necessários mais US$ 25 milhões para a conclusão das obras. O dinheiro para o novo estádio saiu da venda do antigo campo, o Andaraí – hoje Shopping Iguatemi –, do qual o clube tem 3,5% de participação recebendo cerca de R$ 20 mil por mês. O patrimônio do clube, avaliado em R$ 70 milhões, é fiscalizado por Baptista, que, de tão apaixonado pelo clube, resolveu morar em frente.
Fonte: Estadão.

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